Exegese dos Atos dos Apóstolos – 2.2 O discurso de Pedro no dia de Pentecostes

Pedro ergue a voz, toma a palavra e assume o dever de explicar o que

Pedro, então, de pé, junto com os Onze, levantou a voz e assim lhes falou:

“Homens da Judeia e todos vós, habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e prestai ouvidos às minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como pensais, pois, esta é apenas a terceira hora do dia. O que acontece é o que foi dito por intermédio do profeta:

‘Sucederá nos últimos dias, diz Deus, que derramarei do meu Espírito sobre toda carne. Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão. Sim, sobre meus servos e minhas servas derramarei do meu Espírito. E farei aparecer prodígios em cima, no céu, e sinais embaixo, sobre a terra. O sol se mudará em escuridão e a lua em sangue, antes que venha o Dia do Senhor, o grande Dia. E então, todo o que invocar o nome do Senhor, será salvo’.”

“Homens de Israel, ouvi estas palavras! Jesus, o Nazareu, foi por Deus aprovado diante de vós com milagres, prodígios e sinais, que Deus operou por meio dele entre vós, como bem o sabeis. Esse homem, entregue segundo o desígnio determinado e a presciência de Deus, vós o matastes com a crucificação pela mão dos ímpios. Mas Deus o ressuscitou, libertou-o das angústias do Hades, pois não era possível que ele fosse retido em seu poder. De fato, é a respeito dele que diz Davi:

‘Eu via sem cessar o Senhor diante de mim: ele está à minha direita, para que eu não vacile. Por isso alegra-se o meu coração e minha língua exulta. Até minha carne repousará na esperança, porque não abandonarás minha alma no Hades nem permitirás que teu Santo veja a corrupção. Deste-me a conhecer os caminhos da vida: encher-me-ás de júbilo na tua presença.’    (Atos dos Apóstolos, cap. 2, vv. 14 a 28).

“Irmãos, seja permitido dizer-vos com toda franqueza, a respeito do patriarca Davi: ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo encontra-se entre nós até o presente dia. Era profeta e sabia que Deus lhe havia assegurado com juramento que um descendente seu tomaria assento em seu trono, previu e anunciou a ressurreição de Cristo, o qual na verdade não foi abandonado no Hades, nem sua carne viu a corrupção. A este Jesus, Deus o ressuscitou, e disto nós todos somos testemunhas. Portanto, exaltado pela direita de Deus, ele recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou, e é isto o que vedes e ouvis. Pois Davi, que não subiu aos céus, afirma:

‘Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos um estrado para teus pés.’

Saiba, portanto, com certeza, toda a casa de Israel: Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes”. (Atos dos Apóstolos, cap.2, vv.29 a 36).

Com esse pronunciamento, Pedro realiza o seu batismo espiritual diante da comunidade.

Não é apenas um discurso. É o testemunho de uma transformação interior.

Já não fala o homem inseguro que duvidou sobre as águas e precisou ser amparado por Jesus, nem o discípulo que temeu e o negou. Agora fala o homem que assume sua missão, a pedra humana sobre a qual Jesus edificaria a sua Igreja, sua comunidade de fé e de serviço.

Se o Pentecostes foi o batismo espiritual da primeira comunidade cristã, manifestado por meio de fenômenos mediúnicos, este discurso de Pedro representa o nascimento das comunidades cristãs, o início de uma mensagem que se expandiria para toda a Humanidade.

É evidente que Pedro não se limita a responder aos que zombavam ao dizer que os discípulos estavam embriagados. Seu propósito mais profundo é assumir publicamente a responsabilidade de ser o porta-voz do grupo e testemunhar a nova realidade espiritual que se apresentava diante de todos.

O primeiro ensinamento desse episódio é o de não fugir da responsabilidade.

Pedro ergue a voz, toma a palavra e assume o dever de explicar o que acontecia. Para que alguém se torne realmente instrumento do bem, precisa antes vencer seus medos e suas incertezas.

Pedro mudou? A partir dali tornou-se outro homem? Em essência, continuou o mesmo; mas, espiritualmente, renovou-se, pois compreendeu que lhe cabia a missão de conduzir, esclarecer e testemunhar.

O fundamento de sua fala repousa nas Escrituras. Para citar os profetas e interpretar as promessas messiânicas, era necessário conhecimento, e Pedro o possuía. Jesus demonstrara, em toda a sua vida, profundo domínio das Escrituras. Mais que isso, encarnava os princípios e as profecias anunciadas pelos mensageiros de Deus.

Assim, Pedro revela que ele e seus companheiros, embora homens simples, não eram destituídos de conhecimento espiritual. Eram discípulos que haviam convivido com o Mestre, ouvido seus ensinamentos e aprendido a compreender as Escrituras à luz de sua missão.

Quando Pedro recorda os sinais e prodígios, refere-se às curas e aos atos do Cristo. Reafirma o que Jesus havia demonstrado: entre eles estivera alguém que curava, ensinava e agia em harmonia com os princípios anunciados nas Escrituras.

A ressurreição ocupa lugar central em seu testemunho. Sob a ótica espírita, podemos compreendê-la como a demonstração da sobrevivência do Espírito após a morte física. As manifestações do Cristo aos discípulos podem ser entendidas como aparições em sua condição espiritual, mediante o corpo espiritual ou perispírito, de natureza diversa do corpo físico.

Os discípulos, ao presenciarem essas manifestações, receberam uma confirmação viva de que a morte não representa o fim da existência. A vida continua além do túmulo, e os vínculos espirituais verdadeiramente construídos no amor não se desfazem.

Ao citar Davi e os Salmos, Pedro demonstra que os acontecimentos relacionados a Jesus estavam ligados às antigas promessas divinas. As profecias anunciavam a vinda do Messias, e Pedro reconhece em Jesus aquele que cumprira essa promessa. A ressurreição confirma sua condição espiritual e sua missão diante da Humanidade.

Quando Pedro afirma que Jesus, exaltado pela direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e o derramou sobre os discípulos, estabelece a ligação entre a exaltação do Cristo e o Pentecostes. Aquilo que os presentes viam e ouviam era a manifestação concreta dessa realidade espiritual.

À luz do Espiritismo, percebemos nesse episódio a profunda interação entre o mundo espiritual e o mundo material. Os Espíritos podem inspirar, auxiliar e fortalecer os encarnados, sobretudo quando estes se colocam sinceramente a serviço do bem. O Pentecostes revela, assim, a realidade da comunicação entre os dois planos da vida. No entanto, o mais importante não é o fenômeno. É a transformação que o fenômeno produz.

Pedro recebe a inspiração e transforma-a em esclarecimento. Os discípulos recebem o influxo espiritual e transformam-no em trabalho. A comunidade recebe a experiência e assume uma nova responsabilidade diante da Humanidade.

Os aspectos presentes no discurso: conhecimento, fé, responsabilidade e coragem, convidam-nos à reflexão. Até que ponto temos assumido nossas próprias responsabilidades espirituais? Quais são os deveres que a vida nos pede cumprir?

Pedro nos consola e fortalece com suas palavras. Quando um Espírito deseja evoluir e superar-se, enfrenta grandes batalhas interiores; mas, se mantém a consciência de pertencer a uma comunidade espiritual, encontra forças para suportar os impasses e prosseguir.

A grande mensagem de Pedro é esta: pertencemos a uma comunidade espiritual. Não somos apenas parte de uma família carnal, mas de uma família maior, invisível aos olhos, porém presente em nossa caminhada, que nos compreende, ampara e nos estimula ao crescimento.

Quando entendemos que não pertencemos somente ao mundo material, percebemos que jamais estamos verdadeiramente sozinhos. Há sempre uma realidade espiritual que nos envolve, respeita nosso livre-arbítrio, pode nos inspirar e sustentar com amor e esperança.

Pedro nos ensina, enfim, que a verdadeira experiência espiritual não deve permanecer apenas no campo do fenômeno ou da emoção. Ela precisa converter-se em consciência, responsabilidade e serviço.

O homem que antes vacilava agora se levanta e fala diante da multidão. O discípulo que conheceu o medo encontra coragem para testemunhar. Pedro compreendeu sua missão e colocou seus recursos a serviço do Cristo.

Também nós somos convidados a fazer o mesmo: transformar fé em responsabilidade, conhecimento em serviço e inspiração em ação.

Por Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

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