Exegese dos Atos dos Apóstolos – 5.2 Numerosos sinais dos apóstolos

A união, a fé e os bons sentimentos nos tornam instrumentos de cura, esperança e fraternidade, levando paz e consolo a todos ao nosso redor.

Pelas mãos dos apóstolos faziam-se numerosos sinais e prodígios no meio do povo. Costumavam estar, todos juntos, de comum acordo, no pórtico de Salomão, e nenhum dos outros ousava juntar-se a eles, embora o povo os engrandecesse. Mais e mais aderiam ao Senhor, pela fé, multidões de homens e de mulheres. . . . a ponto de levarem os doentes até para as ruas e os colocava-os sobre leitos e em macas, para que, ao passar Pedro, ao menos sua sombra encobrisse algum deles. Também das cidades vizinhas de Jerusalém acorria a multidão que trazia enfermos e atormentados por espíritos impuros, os quais eram todos curados. (Atos dos Apóstolos, cap.5, vv. 12-16).

O episódio revela um momento de grande expansão do Cristianismo nascente. Os apóstolos permaneciam unidos, o que era demonstrado no Pórtico de Salomão, onde davam testemunho dos ensinamentos de Jesus por meio de suas palavras e ações. Embora muitos tivessem receio de se aproximar deles, em razão das possíveis represálias das autoridades religiosas, o povo reconhecia a importância do trabalho apostolar e demonstrava crescente confiança em sua missão.

Cabe observar que a fé não estava condicionada a um determinado lugar. O Pórtico de Salomão era apenas o espaço onde os apóstolos se reuniam para ensinar e testemunhar os ensinamentos de Jesus. A verdadeira manifestação da espiritualidade não depende de templos, construções ou ambientes específicos, mas da disposição interior de cada criatura para se aproximar de Deus. Qualquer lugar pode tornar-se um espaço de oração, renovação e elevação espiritual, desde que ali cultivemos sentimentos nobres.

Outro aspecto de relevância desse episódio é a confiança que o povo depositava em Pedro. As pessoas levavam os enfermos e portadores de obsessões espirituais às ruas de Jerusalém, na esperança de que até mesmo sua sombra pudesse alcançá-los. Isso porque curas ocorriam quando a aura de Pedro emitia fluidos curadores para muitos que se aproximavam dele, além da ação dos bons espíritos que o acompanhavam. Mais do que a manifestação exterior desse acontecimento, podemos refletir a respeito da fé e a confiança que os primeiros cristãos inspiravam na população. Pedro e os demais apóstolos tornaram-se instrumentos de cura para todos os enfermos e também de uma mensagem de esperança, amparo e transformação espiritual.

Essa narrativa igualmente nos convida a refletir a respeito da importância da união. Quando as pessoas se aproximam por meio de sentimentos elevados e propósitos dignos, criam condições favoráveis à fraternidade e ao auxílio mútuo. A união não significa apenas permanecer fisicamente junto, mas compartilhar ideais, sentimentos e responsabilidades em favor do bem comum.

Devemos, portanto, ser vigilantes em relação aos nossos pensamentos, sentimentos, palavras e atitudes. Nossas disposições íntimas influenciam o ambiente espiritual e as pessoas com as quais convivemos. A aura, entendida como expressão do estado espiritual do indivíduo, reflete suas condições morais e emocionais. Por isso, é importante cultivar pensamentos equilibrados, sentimentos fraternos e atitudes construtivas.

Temos condições de ajudar o próximo não apenas por meio dos recursos materiais, mas também pela força do amor, da compreensão, da prece e dos bons sentimentos. Mesmo quando estamos distantes fisicamente, podemos dedicar pensamentos de carinho, solidariedade e esperança àqueles que necessitam de amparo. A distância não impede a expressão de nossa fraternidade.

Existem pessoas que, muitas vezes sem perceber, tornam os ambientes pesados por meio de suas inquietações, intolerâncias, palavras e atitudes. Outras, no entanto, conseguem transmitir serenidade, confiança e harmonia. São pessoas que, pela maneira de pensar, sentir e agir, contribuem para melhorar o ambiente onde se encontram.

Eis uma importante lição desse episódio: assim como os primeiros cristãos procuravam levar esperança e alívio aos enfermos, também devemos nos esforçar para que nossa presença represente uma oportunidade de consolo, equilíbrio e renovação para aqueles que convivem conosco.

Afinal, não basta estarmos próximos das pessoas. Precisamos ser portadores da paz que desejamos encontrar no mundo.

Por Emídio Brasileiro, Educador, Jurista e Cientista da Religião

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

9 * 5 = ?
Reload

This CAPTCHA helps ensure that you are human. Please enter the requested characters.