
FERNANDO SAMUEL
A pergunta de Jesus que está registrada em Lucas 8:25 revela uma simplicidade típica das grandes lições de Cristo, porque narra um lago em fúria, a barca à deriva e os discípulos — homens experientes, alguns deles pescadores de toda a vida — tomados de pavor. Não era a primeira vez que enfrentavam tempestades. E, ainda assim, o medo os venceu.
Jesus acalma os ventos e as águas. Mas, antes de qualquer outra palavra, volta-se para aqueles que o seguiam e lança a pergunta que atravessa os séculos: “Onde está a vossa fé?”
Emmanuel nos convida a meditar sobre o alcance dessa interrogação (1). Jesus não pretendia repreender os discípulos, mas antes transmitir um novo ensinamento de amor. O Mestre não pergunta se havia fé, mas onde ela estava. A fé existia; estava apenas adormecida sob o peso do medo. A fé está conectada à centelha divina que existe em toda criatura humana, encarnada ou desencarnada.
A confiança verdadeira não se revela nos momentos de tranquilidade, quando o céu está aberto e os caminhos são largos, mas sim na hora das tempestades da vida. É no instante em que tudo parece obscuro e perdido que a fé encontra seu tempo próprio, sua hora de manifestar-se como força viva e não como mero ornamento espiritual.
Emmanuel lembra-nos que o socorro divino sempre vem. A misericórdia celestial é infinita e não abandona nenhum filho em sua hora de necessidade. Mas, vencida a dificuldade, a pergunta retorna, suave e firme: “Onde estava a vossa fé?”
E assim se dá o aprendizado da alma. Cada tempestade superada é uma aula. Cada obstáculo vencido com serenidade é um passo a mais na educação do espírito. Não somos poupados das provações, mas somos convidados a crescer através delas.
Que possamos, então, ao primeiro sinal da tormenta, buscar dentro de nós aquela centelha que nunca se apaga: a certeza silenciosa de que não estamos sós.
(1) XAVIER, Francisco C. Caminho, Verdade e Vida, cap. 40, “Tempo de Confiança”. 28 ed. Rio de Janeiro: FEB, 2012.
FERNANDO SAMUEL é palestrante do CEIS



